quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Jerusalém
Deitei-me com o intuito de me levantar cedo, mas foi impossível levantar os ossos antes das 9h! Ainda acordei com o Yakobe que gentilmente se despediu da malta antes de regressar a Moscovo, mas as cervejas da noite anterior não me deixaram levantar quando quis! Após tomar o pequeno-almoço e de me despedir do pessoal, apanhei o autocarro para a estação central de Tel Aviv, onde aguardei por um outro que me levaria a Jerusalém, uma das cidades mais antigas do mundo.
Jerusalém brindou-me com um vento desagradável e uns chuviscos! Sigo pela rua de Jaffa, uma das principais artérias da cidade, onde construções modernas antecedem a parte antiga da cidade. Percebe-se que é uma cidade historicamente sob tensão, em que se usa uma metralhadora como sendo uma peça de vestuário. É considerada sagrada pelo cristianismo, judaísmo e islamismo e disputada enquanto capital por Israel e pela Palestina. À medida que avanço pela rua fora observo pessoas a serem revistadas e lembro-me que ainda há 2 dias uma senhora morreu esfaqueada por um radical! Este sentimento de insegurança vai diminuindo à medida que se interioriza a normalidade de uma cidade com as características de Jerusalém.
Ainda tive que andar uns 20 minutos até chegar ao Abraham Hostel. Após o check-in dei início à descoberta da cidade santa, como é conhecida! Até à Cidade Antiga foram uns 20 minutos a caminhar! Contida dentro das antigas muralhas, é composta por labirintos de ruas seculares que formam vários bairros: o judeu, o cristão, o muçulmano e o arménio! Situada na Jerusalém Oriental e tratada pela comunidade internacional como um território palestino ocupado por Israel, é uma miscelânea de culturas num espaço confinado, mas é interessante a forma como coabitam!
Percorri a Via Dolorosa, considerado o percurso em que Jesus Cristo carregou a cruz até ao calvário. Inicia-se onde Pilatos condenou Jesus, passando pelos locais em que recebeu a cruz e foi chicoteado até à Igreja do Santo Sepulcro, onde se crê que foi crucificado, sepultado e de onde ressuscitou no Domingo de Páscoa. Acredite-se ou não, tenha-se mais ou menos fé, somos embalados pela nossa educação católica e imaginámo-nos nessa época!
À noite aproveitei para jantar no mercado Mahane Yehuda, um must see de Jerusalém. Como seria de esperar existe de tudo um pouco, desde especiarias e frutos secos a bares e restaurantes. Imperdível. Depois foi voltar ao hostel onde fiquei à conversa com o pessoal do quarto até decidirmos descansar, pois como habitual, os dias começam cedo!
Na quarta-feira, segundo dia em Jerusalém, cumpri com o prometido e levantei-me bastante cedo para poder visitar o máximo de sítios possíveis. Comecei pelo Muro das Lamentações, o local mais sagrado do judaísmo. Está dividido em duas áreas: uma maior para os homens e outra mais pequena para as mulheres. De seguida visitei o monte do Templo (Al-Haram ash-Sharif), que é um lugar sagrado para muçulmanos, cristãos e judeus, sendo um também um dos locais mais disputados do mundo. Lá encontram-se a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha, este último um dos edifícios mais fotografados do mundo. De acordo com a tradição judaica, foi aqui que Abraão preparou o sacrifício do seu filho. O islão acredita que foi aqui que o profeta Mohammed ascendeu ao céu.
À entrada fui barrado por um segurança com metralhadora que me informou que tinha de alugar uma peça de vestuário para tapar os joelhos, uma vez que estava de calções! 20 NIS (o equivalente a cerca de 4€) foi quanto me custou o aluguer, sendo que no final ainda tinha de devolver. Já no interior fui abordado por um muçulmano que me quis dar a conhecer um pouco do Islão. Estivemos à conversa por alguns minutos e no final ofereceu-me um livro sobre o Islão em português e quis saber como é viver em Portugal.
Como quem não quer a coisa saí por um dos portões de acesso sem devolver o "tapa pernas" por uma questão de orgulho português! E ainda bem que assim o fiz, pois viria a ser útil!
Dali palmilhei até à Cidade de David, as origens da cidade de Jerusalém! Lá podemos encontrar valiosos achados arqueológicos com mais de 3000 mil anos! A principal atração é o Túnel de Ezequias, escavado em rocha sólida e que conduzia a Fonte de Giom até à Piscina de Siloé. Com mais de 500 metros de distância e alguns de profundidade, é mencionado na Bíblia e descrito por peritos como uma das grandes proezas de engenharia da antiguidade. Melhor mesmo, é podermos percorrer o túnel! O aconselhável é levar roupa e calçado próprio, coisa que não fiz. A profundidade da água pode chegar aos 70 cm e a escuridão é total! Ainda bem que trago comigo uma mini lanterna à "corda" que comprei na Decathlon. Descalço e sempre a dar à corda à lanterna lá fui avançando pelo túnel! Escuridão total e apenas o barulho dos nossos pés na água! Espectacular! Uns 20 minutos depois cheguei ao fim, com umas cotoveladas nas rochas e os pés doridos do chão rochoso, mas com um "tapa pernas" para me secar! Afinal sempre deu jeito!
O regresso ainda pensei em fazê-lo pela parte árabe, mas fui desaconselhado por um segurança.
Com fome e sede, parei para dar uns golos de água e para comer o ovo que pus ao bolso no hostel! Alguns quilômetros depois, sempre a subir a pique, cheguei ao Monte das Oliveiras. De lá é possível obter uma vista espectacular da cidade bem como do cemitério judeu que acompanha a montanha! Agora é descer e voltar à Cidade Antiga, não sem antes visitar a Igreja de Todas as Nações, o Jardim de Getsêmani onde se acredita que Jesus e os seus discípulos tenham orado na noite anterior à sua crucificação e o Túmulo de Virgem Maria, um dos locais mais sagrados do cristianismo uma vez que se crê que foi aqui que foi enterrada.
Já dentro das muralhas da Cidade Antiga valeu a pena perder-me pelas ruas e mercados e ver o dia a ir-se sentado nos telhados do Bairro Judeu. No Bairro Muçulmano, o mais populoso, pude admirar as brincadeiras e o vai e vem das crianças, os afazeres dos vendedores e o entoar das orações vindas do alto das mesquitas!
Antes de me vender ao cansaço, tempo ainda para visitar a Torre de David (Citadela).
À noite voltei ao mercado Mahane Yehuda para jantar e olhar as gentes que por aqui passam.
Quinta-feira, terceiro dia na cidade. Aproveitei para dormir até mais tarde já que planeei apenas visitar Yad Vashem, o museu do holocausto. É um memorial para lembrar os cerca de 6 milhões de judeus mortos às mãos dos nazis. Situado no cimo do Monte Herzl, é um complexo com cerca de 18 hectares, em que podemos encontrar vários memoriais, como o memorial aos "Justos entre as Nações" que honram os não-judeus que ajudaram a salvar milhares de judeus durante o holocausto, e onde o nosso Aristides de Sousa Mendes está imortalizado.
Depois de visitar Auschwitz-Birkenau na Polónia e as praias do desembarque na Normandia, este tinha de ser o próximo.
O regresso ao hostel fez-se sob uma chuva fria e de lá apenas saí quando ouvi a polícia com altifalantes na rua a bloquear o trânsito.
Na paragem de autocarro estava um saco suspeito, pelo que a polícia mandou imediatamente afastar todos do local, evacuando mesmo alguns estabelecimentos. Após algum tempo de inspeção para as autoridades e de alguma expectativa para os que assistiam, não passou de um falso alarme. E tudo voltou à normalidade.
Ainda bem que vim ver, pensei, já que descobri um café com a comida mais barata que vi desde que cheguei a Jerusalém!
Tempo para fechar os olhos, pois por volta das 3h da madrugada sairei do hostel rumo a Masada para ver o nascer do sol, Ein Gedin e Mar Morto.
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